Artigo aceito para a Vª Gecamb, conferência da Universidade de Coimbra – Portugal, realizado em 2012.
Autores:
Ana Cristina Silva Abreu é bacharel em Ciências Contábeis (UFSC) e Graduanda em Direito (CESUSC).
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RESUMO
O presente estudo faz uma análise das formas de abordagem do tema Sustentabilidade pelas companhias pertencentes ao ISE, através de seus relatórios financeiros anuais referentes ao ano de 2011 sob o seguinte aspecto: Frequência de menções aos termos referentes à sustentabilidade, dentre os documentos de divulgação obrigatória exigíveis pela CVM (Notas Explicativas, Relatório da Administração e Formulário de Referência) ou de divulgação arbitrária (Relatório Anual, Relatório de Sustentabilidade e Balanço Social). Paralelamente, observou-se como são – e se são – apresentadas definições para o que significaria o conceito Sustentabilidade no contexto destes relatórios. Para proceder na análise do teor dos textos conceituais emitidos pelas empresas, fez-se um exame prévio de três abordagens sobre o tema: Relatório Brundtland, Triple Bottom Line e Sustentabilidade Corporativa. Trata-se, essencialmente, de uma análise descritiva dos resultados. Observou-se que a ocorrência de palavras-chave nestes relatórios é vasta, de forma, em média, pode haver mais de uma menção por página de documento. Contudo, apesar de mencionar o termo, a palavra sustentabilidade nem sempre foi conceituada pelas empresas; quando foi, a empresas invariavelmente utilizaram os preceitos do Triple Bottom Line. - INTRODUÇÃO
A sociedade, diante da informação difundida pelos meios de comunicação, adquire conhecimento do impacto devido a exploração dos bens naturais de maneira irresponsável. Consequentemente, sociedade e governo viram-se estimulados a adotar posicionamentos sobre o tema. Conscientes do peso da opinião pública sobre o assunto, grandes empresas perceberam que a sustentabilidade deveria ser um valor expressamente adotado na conduta corporativa e, consequentemente, registrado em suas vias de divulgação, tanto no âmbito da exigibilidade normativa como, ainda com maior frequência, associado à imagem/marketing da companhia. Ainda, como instrumento motivador, instituições diversas incorporaram critérios de classificação de empresas com valores de sustentabilidade evidentes, por exemplo, o Dow Jones Sustainability Indexes, iniciativa pioneira da Dow Jones & Company, lançado em 1999 (Dow Jones, 2011b). A exemplo do DJSI, primeiro índice de referência em sustentabilidade global, outras instituições adotaram o uso de indexadores próprios referentes ao assunto.
A BM&FBOVESPA acompanhou esta tendência e criou o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), índice referencial para compor carteira de ações personalizada, constituída somente por empresas comprometidas com a responsabilidade social, sustentabilidade empresarial e com atuações no sentido de promover boas práticas no meio corporativo (BM&FBOVESPA, 2011a) brasileiro. Sendo a sustentabilidade fator determinante na elegibilidade de empresas para compor tal índice, presume-se que tais companhias conceituem de maneira plena a essência deste termo e termos diretamente correlatos.
Este trabalho buscou averiguar se as empresas, através de relatórios financeiros exigíveis pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e relatórios de divulgação arbitrária, apresentam conceituações para a terminologia supracitada, se o fazem com base nas referências base sobre o tema e com que frequência tais termos aparecem em seus relatórios. O objetivo geral deste estudo consiste na identificação de conceitos de sustentabilidade e a frequência na qual estes termos aparecem, pelas companhias integrantes do ISE 2011, através de pesquisa nos seus relatórios financeiros, obrigatórios e voluntários; ainda, na verificação do teor destes conceitos em face às definições mais difundidas sobre o tema.
2. Sustentabilidade
A sustentabilidade, sob a ótica semântica, é disposta como a “qualidade de sustentável”, “que se pode sustentar” ou ainda “capaz de se manter mais ou menos constante, ou estável, por longo período” (Ferreira, 2004). Observa-se, ainda, que não há uma aplicação restrita ao meio ambiente. Bell e Morse (2008, p.10) comentam essa falta de uma definição concreta para o termo e faz a seguinte pergunta: “Como algo tão vago pode ser tão popular?” Veiga (2005) conceitua sustentabilidade basicamente sob a óptica ambiental, tratando da preservação da natureza e limitação do usos de recursos naturais Epstein (2008) cita 9 princípios da performance sustentável, admitido pelo autor como sendo uma definição ampla de sustentabilidade. Os princípios são: Ética, Governança, Transparência, Relacionamentos de negócios, Retorno financeiro, Desenvolvimento econômico, Valor de produtos e serviços, Práticas de trabalho e Proteção ao ambiente. Nota-se que apenas um dos princípios tem aplicação restrita ao meio ambiente. Para fins de explanação sobre o termo de forma mais específica, vê-se, a seguir, três pontos de vista mais complexos e de caráter doutrinário sobre o tema: o Relatório Brundtland, o Triple Botton Line e a Sustentabilidade Corporativa.
O Relatório Brundtland, publicado em 1989, é resultado da Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), criada em 1983, em assembleia geral da ONU. Este documento, também chamado de Nosso Futuro Comum, tornou-se referência ao consolidar a expressão “desenvolvimento sustentável” – que veio a influenciar convenções posteriores sobre o tema – e é frequentemente difundida entre outros autores, ao apresentar a seguinte definição para o termo: “O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991). Essa mesma obra também elenca quais seriam estas estratégias, além de apresentar uma súmula de princípios para proteção ambiental e desenvolvimento sustentável.
O conceito do Triple Botton Line traduz a sustentabilidade num conjunto de ações que envolvam três aspectos, de forma concomitante e em equilíbrio: ambiental, social e econômico. Barbieri e Cajazeira (2011) mencionam o conteúdo da obra “Canibais de Garfo e Faca”, para explicar o funcionamento do modelo. Sua base requer resultados positivos nas três dimensões supracitadas. De forma prática, considera-se que há relação de interdependência da sociedade com a economia, e ambos, com o ecossistema global. No entanto, há dúvidas quanto à eficiência prática deste modelo; ainda, se esta ideia é apenas metafórica. Evidencia-se, por exemplo, que não é possível concluir a existência de uma “linha” social, e que a metodologia proposta traduz-se em resultados enganosos (Norman e MacDonald, 2011). Restringindo-se ao aspecto conceitual, o triple bottom line, em suma, versa sobre o equilíbrio de elementos, sob a ótica de pilares; quando em harmonia, promovem a sustentabilidade.
A Sustentabilidade Corporativa, tradução literal do termo Corporate Sustainability, é difundido por Dow Jones (2011a): “Sustentabilidade Corporativa é a visão de negócios que cria valor a longo prazo aos acionistas, através do aproveitamento de oportunidades e gerenciamento dos riscos inerentes ao desenvolvimento econômico, ambiental e social”. Percebe-se influência direta do conceito Triple Bottom Line, especialmente quanto ao uso dos elementos econômico, social e ambiental. No entanto, diferencia-se na abordagem, claramente, voltada ao ambiente empresarial de uma forma mais ampla, pois associa sustentabilidade à “criação de valor” e gerenciamento de custos e riscos. Segundo o autor, os aspectos qualitativos da estratégia de uma empresa, gestão e desempenho ao lidar com os riscos decorrentes do desenvolvimento econômico, ambiental e social podem ser quantificados; desta forma, utilizados como parâmetro para identificar e selecionar as principais empresas pra fins de investimento neste sentido. A sigla ISE possui referência análoga a este termo.
2.1 ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial da BM&FBOVESPA
O índice, iniciativa da BM&FBOVESPA – em associação com as instituições ABRAPP, ANBIMA, APIMEC, IBGC, IFC, Instituto ETHOS e Ministério do Meio Ambiente – originou-se da crescente demanda de investidores atentos aos aspectos de responsabilidade social e ambiental das empresas listadas, como forma de ponderação para aplicarem seus recursos. Há uma tendência neste sentido em relação aos próprios valores da sociedade, portanto, é natural que o mercado passe a acompanhar tais preceitos, chamados de “investimentos socialmente responsáveis” (SRI). Para cumprir com esta finalidade, o ISE é composto por ações de empresas que, declaradamente, atendem aos requisitos necessários, conforme metodologia própria. Tais métodos foram elaborados pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (CES-FGV), contratada pelo Conselho da BM&FBOVESPA, com base em aplicação de questionários de desempenho entre suas ações mais negociadas. Questiona-se, essencialmente, sobre aspectos ambientais, sociais e econômico-financeiros, de forma integrada, analogamente ao Triple Bottom Line, e outros indicadores complementares: critérios gerais (publicar balanços sociais e/ou posição da empresa perante acordos globais); de natureza do produto (se acarreta em danos e/ou riscos à saúde); e de governança corporativa (BM&FBOVESPA, 2011b). A revisão destes índices é anual, portanto, renovam-se as ações e empresas ao final de cada período.
2.2 Relatórios Financeiros
São documentos emitidos pelas companhias, compulsoriamente – quando se tratar de exigência da CVM – ou voluntariamente, por entender que o investidor, ou qualquer outro usuário, requer informações adicionais, não cabíveis naqueles obrigatórios. A Figura 1 discrimina os relatórios de caráter obrigatório relevantes para a pesquisa, acompanhados de uma breve noção sobre o conteúdo e características de cada um destes: Notas Explicativas (NE); Relatório da Administração (RAD); Formulário de Referência (FR).
Figura 1 – Relatórios Financeiros Obrigatórios
Fonte: elaborado pelos autores.
De forma análoga, a Figura 2 discrimina quais os relatórios de emissão voluntária relevantes para a pesquisa, acompanhados de uma breve noção sobre o conteúdo e características de forma individual. São estes: Relatório Anual (RAN); Relatório de Sustentabilidade (RS); Balanço Social (BS).
Figura 2 – Relatórios Financeiros Voluntários
Fonte: Elaborado pelos autores.
Oportuno ressaltar que não são estes os únicos relatórios financeiros emitidos pelas companhias de capital aberto, obrigatórios ou voluntários; As DFP compreendem outras Demonstrações não utilizadas na pesquisa. Ainda no âmbito das exigibilidades, apenas foram listados os relatórios anuais, excluindo-se as Informações Trimestrais. Quanto aos de caráter voluntário, buscou-se uma padronização e apenas aqueles três (RAN, RS e BS) foram incluídos na pesquisa.
2.3 Trabalhos Anteriores
Como instrumento de suporte para a presente pesquisa, buscou-se referências em resultados obtidos anteriormente sobre assuntos de considerável relevância. Os que atenderam a este critério da melhor forma apresentam-se na Figura 3.
Figura 3 – Pesquisas em conceito de sustentabilidade e busca de expressões relacionadas.
Fonte: Elaborado pelos autores.
3. METODOLOGIA DE PESQUISA
3.1 Coleta de Dados
Para buscar o conceito de sustentabilidade na população estudada, que são as 38 companhias que integram o ISE de 2011, requer-se pesquisa documental, neste caso, a utilização dos relatórios financeiros das empresas como instrumento de pesquisa. Foram utilizadas as seguintes informações financeiras de divulgação compulsória, conforme exigibilidade da CVM: Notas Explicativas (NE), Relatório da Administração (RAD) e Formulário de Referência (FR). Somam-se a estes, quando disponíveis, os seguintes relatórios voluntários: Relatório Anual (RAN), Relatório de Sustentabilidade (RS) e Balanço Social (BS). No caso de ambiguidade quanto à denominação destes relatórios – já que, muitas vezes, o conteúdo dos mesmos é confundido – adotou-se o seguinte critério: “Relatório Anual e de Sustentabilidade” = RAN.
A pesquisa se restringe a documentos direcionados aos usuários em língua portuguesa. O Formulário 20-F, por se tratar de uma exigência da U.S. Securities and Exchange Comission (SEC) – e não da CVM – não foi incluído na pesquisa, além de, muitas vezes, se tratar de um documento emitido pelas companhias somente em língua inglesa.
Conforme supracitado, 38 companhias fazem parte do ISE para a carteira de ações do ano de 2011, oriundas de setores e atividades principais diversificadas. Não existem critérios restritivos do âmbito de atuação destas empresas para fins de elegibilidade ao Índice – desde que respeitados os critérios de sustentabilidade elencados anteriormente – portanto, é natural perceber que não há maiores padronizações quanto à classificação setorial destas companhias, de forma geral. A Figura 4 ilustra a disposição destas empresas, em ordem alfabética de seus nomes de Pregão, e a respectiva Classificação Setorial, conforme denominação dada aos grandes setores pela BM&FBOVESPA:
Figura 4 – Disposição das empresas integrantes do ISE e Classificação Setorial
Fonte: Elaborado pelos autores.
Para tornar a leitura mais objetiva e verificar o número de ocorrência de termos, determinou-se o uso de nomenclatura específica para a coleta de informações nos respectivos relatórios, obtidos por meio virtual. Esta ação possibilita que sejam identificadas, ao longo de seu conteúdo, sentenças que conceituem o termo Sustentabilidade. Atendendo a este fim, são palavras-chave: Sustentabilidade; Sustentável; e Sustentáveis.
Um dos critérios de seleção do ISE baseia-se no conceito Triple Bottom Line; portanto, realizou-se, concomitantemente, pesquisa deste termo e termos análogos: Triple Bottom Line; TBL; e Tripé da sustentabilidade.
A fim de apresentar os resultados obtidos de maneira clara, sob forma de tabelas, optou-se pelo agrupamento das empresas da seguinte forma:
- Grupo A – empresas do setor de Utilidade Pública;
- Grupo B – empresas do setor Financeiro e Outros;
- Grupo C – empresas dos setores de Material Básico, Bens Industriais e Construção;
- Grupo D – empresas dos setores de Consumo (Cíclico e não Cíclico) e Telecomunicações.
Para a classificação de conceitos, quanto à atribuição de conteúdo a um ou outro autor, faz-se necessário estabelecer critérios.
a) Relatório Brundtland – quando houver menção, direta ou indireta, inclusive sinônimos, de preocupação com as gerações futuras;
b) Triple Bottom Line – quando houver menção, direta ou indireta, inclusive sinônimos, aos aspectos sociais, ambientais e econômicos, concomitantemente;
c) Sustentabilidade Corporativa – quando houver menção, direta ou indireta, inclusive sinônimos, de criação de valor, visão no longo prazo e gerenciamento dos riscos inerentes ao desenvolvimento do TBL.
3.2 Limitações da Pesquisa
As fontes da presente pesquisa são, conforme dito anteriormente, alguns dos relatórios financeiros exigíveis e voluntários emitidos pelo universo de empresas estudado. O critério para estabelecer quais os documentos utilizados na pesquisa parte, especialmente, da relevância destes para uma pesquisa textual; portanto, o estudo se restringe aos documentos arbitrariamente escolhidos como mais adequados para o objetivo do trabalho restar alcançado.
Não há uma padronização rígida no conteúdo descritivo dos relatórios, especialmente daqueles emitidos voluntariamente; ou seja, há uma variação significativa tanto no aspecto qualitativo – já que, eventualmente, algumas companhias estudadas preferem divulgar informações e posicionamentos de sustentabilidade de maneira mais aprofundada por outros meios, por exemplo, através do site oficial ou marketing em geral – como quantitativo, advindo do caráter optativo de divulgação de relatórios voluntários; portanto, haverá divergência quanto ao número de fontes para a pesquisa feita em cada empresa.
Outra limitação da pesquisa recai na tempestividade das empresas para divulgação dos relatórios voluntários: devido ao caráter não exigível destes documentos, assume-se o risco de não existirem fontes documentais para a pesquisa; desta vez, não por inexistência, mas pela ausência de tempo hábil para disponibilização destes nos meios de divulgação pelas companhias, no momento da coleta de dados para a presente monografia. Quanto à pesquisa e pareceres sobre os conceitos emitidos pelas empresas, está-se diante de outra limitação: afirmar se uma empresa conceitua satisfatoriamente ou não o termo “sustentabilidade” ou “desenvolvimento sustentável” é um julgamento amplamente subjetivo, assim como determinar semelhanças entre um e outro conceito e, especialmente, associar um texto emitido por determinada companhia às ideias conceituais de algum autor – exceto se expressamente afirmado, quando nas ocorrências de citações diretas e/ou indiretas. O estudo se sujeita, portanto, à subjetividade dos resultados apresentados.
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.1 Análise dos Relatórios Obrigatórios
Dentre os relatórios exigíveis pela CVM, ou seja, Notas Explicativas (NE), Relatório da Administração (RAD) e Formulário de Referência (FR), para cada um deles, pesquisou-se o número de ocorrências para os termos do Triple Bottom Line (TBL), Sustentabilidade (STB) e Sustentável(is) (STV), conforme apresentado nas tabelas a seguir:
- Grupo A – Utilidade Pública
Ocorrências dos termos nos RF Obrigatórios para o Grupo A.
Fonte: Elaborado pelos autores.
- Grupo B – Financeiro e Outros
Ocorrências dos termos nos RF Obrigatórios para o Grupo B.
Fonte: Elaborado pelos autores.
- Grupo C – Material Básico, Bens Industriais e Construção
Ocorrências dos termos nos RF Obrigatórios para o Grupo C.
Fonte: Elaborado pelos autores.
- Grupo D – Consumo (Cíclico e Não Cíclico) e Telecomunicações
Ocorrências dos termos nos RF Obrigatórios para o Grupo D.
Fonte: Elaborado pelos autores.
É possível constatar que tais termos aparecem, em menor freqüência, nas NE; em diversos casos não há ocorrência alguma. No Grupo D, por exemplo, apenas a empresa BRF Foods utilizou duas das palavras-chave pesquisadas – sustentável e sustentável(is) – em seus textos nas NE. Não houve referência alguma ao TBL neste relatório, para nenhuma companhia do ISE. O RAD é a DFP que obteve maior número de ocorrências dos termos pesquisados. Na empresa Telemar, “sustentabilidade” foi mencionada 28 vezes pela Administração da companhia. Menções ao Triple Bottom Line – constante na metodologia para seleção de empresas no ISE – também não são comuns. O FR, demonstração financeira exigível apenas a partir de 2009, dentre o rol das obrigatórias utilizadas na pesquisa, é a que apresenta o uso dos termos de forma mais frequente. A Suzano Papel, por exemplo, menciona 44 vezes a palavra “sustentabilidade” neste relatório. Poucas vezes houve menções diretas ao Triple Bottom Line.
4.2 Análise dos Relatórios Voluntários
Procedeu-se da mesma forma para os relatórios de caráter voluntário. São eles: Relatório Anual (RAN), Relatório de Sustentabilidade (RS) e Balanço Social (BS). Os mesmos termos foram buscados – Triple Bottom Line (TBL), Sustentabilidade (STB) e Sustentável(is) (STV) – e suas repetições contabilizadas nos relatórios emitidos voluntariamente pelas companhias. Eventuais campos em branco se dão em decorrência de uma ou mais hipóteses a seguir:
1) As empresas podem emitir Relatório Anual e Relatório de Sustentabilidade. No entanto, com bastante frequência as empresas optam por divulgar um relatório único, muitas vezes, que compreenda características de ambos os relatórios. Das 38 empresas, 18 companhias divulgaram somente RAN e 16 companhias divulgaram somente RS. Apenas três companhias divulgaram RAN e RS, simultaneamente. São elas: Bradesco; Eletrobrás; Tim Part. S/A.
2) Campos em branco para Balanço Social podem significar que a empresa nunca divulgou BS ou a empresa costumava divulgar BS, mas não emite mais informações referentes a esta demonstração financeira nestes moldes.
A empresa Coelce, até o momento da coleta dos dados, não havia apresentado em seu site oficial nenhum destes três documentos referentes ao ano de 2010.
- Grupo A – Utilidade Pública
Tabela 5:
Ocorrências dos termos nos RF Voluntários para o Grupo A.
Fonte: Elaborado pelos autores.- Grupo B – Financeiro e Outros
Ocorrências dos termos nos RF Voluntários para o Grupo B.
Fonte: Elaborado pelos autores.
- Grupo C – Material Básico, Bens Industriais e Construção
Ocorrências dos termos nos RF Voluntários para o Grupo C.
Fonte: Elaborado pelos autores.
- Grupo D – Consumo (Cíclico e Não Cíclico) e Telecomunicações
Ocorrências dos termos nos RF Voluntários para o Grupo D.
Fonte: Elaborado pelos autores.
Nenhuma empresa deixou de citar “sustentabilidade” e “sustentável (is)” neste relatório. A redundância dos termos sustentabilidade e sustentável (is) é ainda mais evidente no RS: o primeiro termo é explícito, inclusive, no próprio título do documento. Nas companhias Fibria e Vale, a palavra “sustentabilidade” é reproduzida em seus Relatórios de Sustentabilidade 178 vezes. O BS, por outro lado, não possui ocorrências: sem dúvida, é uma demonstração complementar de relevância considerável, todavia, expressa seus resultados na forma de Balanço sem a utilização dos termos da pesquisa na composição de seus itens. Sua maior ocorrência, nesta pesquisa, foi como parte de Relatório de Sustentabilidade.
4.3 Análise dos Conceitos de Sustentabilidade
Todas as empresas destacam a sustentabilidade como um valor importante, declaram fazer partes do ISE e, em boa parte das vezes, mencionam aspectos do Triple Bottom Line. No entanto, nem sempre definem exatamente o que seria a sustentabilidade.
Em números absolutos, o setor de Utilidade Pública é o que mais conceitua o termo em seus relatórios – em 9 de 13 companhias. Todas as companhias de Telecomunicações e de Construção apresentaram definições nos conteúdos de seus relatórios. No setor de Consumo, apenas uma, de três companhias, não conceituou. De Materiais Básicos, 3 de 7 não conceituam e as companhias do setor Financeiro e Outros, em números absolutos, conceituam menos: não foram identificados textos com definições neste sentido em 5 de 9 empresas.
Figura 5 – Conceitos e autores em Sustentabilidade
Fonte: Elaborado pelos autores.
Quanto às referências para os conceitos de Sustentabilidade, buscou-se a identificação de elementos nos conceitos das empresas – reproduzidos aqui de forma fiel, conforme texto encontrado em um ou mais relatórios de cada empresa – para relacioná-los com as três referências dispostas na Figura 5.
a) Relatório Brundtland
Para afirmar a relação de conceitos como semelhantes – ou idênticos – ao Relatório, procedeu-se de forma a analisar se a própria companhia comunicava, em seus textos, conceituações com a respectiva referência:
Figura 6 – Menção direta ao Relatório Brundtland.
Fonte: Elaborado pelos autores.
Mesmo conceito foi utilizado por mais duas companhias, no entanto, sem menção direta à autoria da ideia implícita no conteúdo. Foi possível fazer esta relação nestes dois casos, mediante o uso da ideia de “gerações futuras”:
Figura 7 – Menção indireta ao Relatório Brundtland.
Fonte: Elaborado pelos autores.
b) Triple Bottom Line
O conceito mais difundido entre as empresas. Desta vez, os elementos identificadores estão na menção a aspectos sociais, ambientais e econômicos, concomitantemente.
Figura 8 – Menção indireta ao TBL.
Fonte: Elaborado pelos autores.
c) Sustentabilidade Corporativa
É possível afirmar uma clara influência do Triple Bottom Line no conceito de sustentabilidade corporativa. No entanto, há evidente diferenciação quanto à ótica corporativa deste conceito somada ao elemento identificador adicional: a ideia da companhia adquirir, ou criar, valor com este posicionamento. Ainda, menção à visão de longo prazo e reconhecimento dos riscos inerentes ao posicionamento do TBL.
Figura 9 – Menção indireta ao DJSI
Fonte: Elaborado pelos autores.
Indiretamente, e mesmo sem qualquer menção, é possível fazer relação com mesma autoria nestes casos, mediante identificação dos aspectos citados anteriormente. A Light S/A aparece novamente (vide Figura 8) pois emitiu dois conceitos, com alguma distinção, sobre sustentabilidade. Vê-se, na empresa Vivo um caso em que o conceito da empresa está, explicitamente, vinculado ao autor, conforme Figura 10:
Fonte: Elaborado pelos autores.Figura 10 – Menção direta ao DJSI.
d) Múltiplas Referências
Não há impedimentos quanto a uma mesma empresa utilizar idéias de dois ou mais autores nas suas conceituações. Esta hipótese foi observada em duas empresas. A Tim Part. S/A apresenta referenciais interligados às três autorias, simultaneamente; o conceito de sustentabilidade, na empresa Cesp, possui elementos do Triple Bottom Line e Relatório Brundtland. Não se considera referência múltipla quando houver fusão do DJSI e TBL, visto que o segundo já faz parte, implicitamente, do primeiro.
Figura 11 – Conceitos com múltiplas referências.
Fonte: Elaborado pelos autores.
e) Referências não identificadas
Assume-se o risco das empresas apresentarem conceito próprio, todavia, sem quaisquer referências às fontes previamente analisadas. É o caso das seguintes companhias:
Figura 12 – Conceitos com referências não identificadas.
Fonte: Elaborado pelos autores.
A empresa Cemig associa sustentabilidade a um conceito breve, sobre “atuação pelo bem comum”. Poderia aproximar-se do conceito Brundtland se houvesse menção às futuras gerações. Não foi identificado conceito abrangente de sustentabilidade pela empresa Even, restringindo-se ao que seria a sustentabilidade aplicada ao seu ramo de atuação. A Fibria apresenta conceito duplo: num primeiro momento, afirmou e atribuiu o conceito de sustentabilidade ao Relatório Brundtland, ao citá-lo diretamente em seu Relatório de Sustentabilidade (Figura 6); neste mesmo relatório, por conseguinte, apresentou nova opinião sobre o que seria a sustentabilidade, desta vez, associando a ações específicas. No caso da Suzano, há menção literal ao Triple Bottom Line na sua definição; no entanto, afirma que a sua essência – capacidade de renovação – ultrapassa o TBL, sem atribuir maiores referências.
5.CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Os resultados da pesquisa mostram que as expressões relativas a sustentabilidade são encontradas com frequência, especialmente nos relatórios corporativos de natureza voluntária, ou seja, relatórios anuais e de sustentabilidade: o último, em especial, é aquele onde os termos “sustentabilidade”, “sustentável (is)” e os concernentes às diversas traduções do TBL são mais reproduzidos. Nas empresas Fibria e Vale, por exemplo, a palavra-chave “sustentabilidade” teve 178 ocorrências. Isso pode ser considerada uma quantidade expressiva, quando observado número de páginas desses documentos. Dessa forma, a média pode ultrapassar a uma ocorrência por página de um desses relatórios.
A redundância do termo nos textos inseridos nos relatórios financeiros obrigatórios e voluntários – especialmente na segunda situação – nem sempre pode significar que as empresas apresentam definições para estas palavras: das 38 companhias, 15 não apresentaram nenhum tipo de conceituação para a sustentabilidade, restringindo-se a enumerarem metas e resultados neste sentido. Ou seja, o usuário da informação toma conhecimento da posição da empresa diante o tema, mas não logra êxito no sentido de entender, na opinião da administração, o que significa sustentabilidade.
A CMMAD, de 1983, foi a comissão precursora da sustentabilidade, ao difundir o conceito de “desenvolvimento sustentável” na sua obra-resultado, “Nosso Futuro Comum”, ou “Relatório Brundtland”. Apesar de pouco recente, este conceito histórico ainda é bastante utilizado na literatura geral, inclusive nos relatórios corporativos. Tal fato é comprovado diante da constatação de que 4 companhias, das 38 estudadas, utilizam elementos referenciais deste conceito na elaboração de seus próprios – duas delas atribuem, expressamente, ao Relatório Brundtland o significado de sustentabilidade.
O Triple Bottom Line, assim como diversas outras visões de sustentabilidade, tem sua essência originada na perspectiva de desenvolvimento sustentável anteriormente difundida. No entanto, segue num campo mais prático e apresenta a ótica de sustentabilidade na organização no momento em que se promove este desenvolvimento sustentável, pautado no equilíbrio de três elementos: social, ambiental e econômico. Sendo esta a referência abordada pela metodologia do índice de sustentabilidade comum as 38 empresas objetos de estudo, alguma manifestação sobre este conceito, por parte das companhias, era esperada, uma vez que o êxito neste aspecto é fator crucial para que estas integrem nesta carteira de ações específica. O GRI, modelo difundido internacionalmente como parâmetro para relatórios corporativos relacionados à sustentabilidade, também segue estes preceitos. O resultado, portanto, é que as ocorrências de palavras-chave para sustentabilidade são frequentes, porém, algumas empresas não julgaram relevante incluir sua opinião sobre o que seria o desenvolvimento sustentável.
Embora a nomenclatura do Relatório de Sustentabilidade seja sugestiva, não foi este o único recurso das empresas para abordar este assunto: as DFP também apresentaram conceitos, a exemplo das empresas Coelce (NE), Copel (RAD) e Telemar (RAD). Ainda no âmbito das exigibilidades, foram identificadas conceituações no FR das seguintes empresas: AES Tietê, BRF Foods, Tim Part S/A e Suzano. Em 13 momentos, os RS foram instrumento para expressar a opinião do que seria sustentabilidade para as seguintes empresas: Fibria, Anhanguera, Bicbanco, Light S/A(por duas vezes), Telemar, Energias BR, Santander, Vale, Cesp, Even, Fibria e Suzano. Em relatórios anuais, para a Copasa, Brasil, BRF Foods, Sul America, CPFL, Vivo e Cemig. Destaca-se que as empresas BRF Foods, Telemar e Suzano manifestam-se por meio de dois relatórios de forma simultânea; no entanto, com conteúdos idênticos.
Embora este estudo tenha abordado, simultaneamente, a análise da frequência com que estes termos aparecem em seus relatórios e a emissão ou não de uma opinião conceitual sobe o que seja a sustentabilidade, não há como concluir qualquer relação entre estas duas análises. Empresas que não conceituaram sustentabilidade e somente se limitaram a apresentar seus resultados de forma prática, também o fizeram de forma a mencionar as palavras-chave na pesquisa com bastante frequência.
É possível afirmar que a posição de uma empresa como integrante de um índice de sustentabilidade agrega valor à sua imagem; portanto, espera-se que os resultados futuros no âmbito da sustentabilidade pelas empresas, de forma geral, convertam-se em linha crescente.
Portanto, os resultados deste estudo, paralelamente, sugerem que seja esta a imagem que todas as companhias queiram passar aos seus investidores e interessados: a sustentabilidade como essência nas suas atividades. Recomenda-se, para trabalhos posteriores, a análise de outros ciclos do ISE neste mesmo sentido; ou, ainda, uma análise comparativa com empresas listadas em outros índices de sustentabilidade, como o próprio DJSI, a fim de confrontar os resultados, tanto na frequência do uso de termos de sustentabilidade em relatórios financeiros, quanto nos conceitos apresentados sobre este tema.
REFERÊNCIAS
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Crédito da foto destacada: Bruno Canto Carlos